Artigo: Museus a céu aberto
Por Júlio Olivar
Existe um
tabu sobre a morte. No entanto, algumas iniciativas mostram que os cemitérios
são vitais para a compreensão da história e da memória. Formam verdadeiras
cidades com distinções sociais, informações, arquiteturas e obras de arte que
dizem muito sobre os personagens, seu tempo e a própria sociedade. Desde quando
visitar cemitério é coisa para turista? Acontece que o Greenwood é uma das
principais atrações de Nova York desde o século 19. Era um dos programas
favoritos dos novaiorquinos que iam visitar os túmulos das celebridades
enterradas no local, e aproveitar a beleza do parque. Ainda nos EUA, há um
cemitério, o Nacional de Arlington, em Washington, em que citytour guiado custa
9 dólares. É onde está sepultado o ex-presidente John Kennedy.
Não é
diferente na Europa onde há vários cemitérios visitados por turistas na França,
Espanha, Itália... Destaco o Cemitério de Highgate, em Londres, tendo como
habitante mais ilustre o sociólogo alemão Karl Marx. As visitas guiadas a esse logradouro
custam 8 libras. O Père Lachaise, em Paris, também promove o turismo. Além da
beleza do lugar, chamam a atenção mortos notáveis como Honoré de Balzac, Marcel
Proust, Edith Piaf e Jim Morrison. Em Pequim, o cemitério de Babaoshan é o mais
famoso da China, onde estão enterrados heróis revolucionários e membros de
dinastias chinesas.
Em Buenos
Aires, o túmulo de Evita Perón figura entre os atrativos turísticos da cidade
em guias oficiais. Gente do mundo todo frequenta o local simples, nada
monumental perto da grandeza do que foi a dama portenha idolatrada até os dias
de hoje. No Brasil, alguns cemitérios já oferecem serviços turísticos. Exemplo,
o da Consolação, em São Paulo. Lá, aliás, está sepultado o primeiro prefeito
eleito de Porto Velho, o médico, sertanista e jornalista Joaquim Tanajura,
fundador do jornal Alto Madeira. Repousa Tanajura entre expoentes de tantas
áreas, que vão de santos populares, passando por presidentes da República até
nomes como Monteiro Lobato e Conde Matarazzo.
No Cemitério
São João Batista, no Rio de Janeiro, descansam, entre tantos nomes famosos, Santos
Dumont, Tom Jobim, Carmem Miranda e o legendário Marechal Cândido Rondon,
co-fundador e patrono de Rondônia. Lá, 150 jazigos dispõem de QR Codes que
levam às informações na internet sobre os mortos e é primeiro cemitério a
oferecer tour virtual pelo Google Street View. Rondon, que era um homem de
vanguarda e amava a tecnologia, ao mesmo tempo em que tanto prezava as raízes,
certamente gostaria da ideia de promover cemitérios como museus a céu aberto.
Tal
afirmativa se sustenta no fato de que o militar voltou ao seu local de
nascimento, Mimoso (MT), tendo mais de 80 anos de idade, justamente para
construir o túmulo de sua mãe e fazer dele um monumento colocado à entrada da
escola que leva o nome de sua genitora para que todos o avistem. E mais: Rondon
foi quem esboçou o desenho do jazigo dele próprio fazendo constar a maior
expressão da Filosofia Comtista a qual o herói fez sua religião: “o amor por
princípio, a ordem por meio e o progresso por fim”.
Em Rondônia,
fiz questão de recuperar, com a ajuda de companheiros, o túmulo do major
Emanoel Silvestre do Amarante, morto em 1929 e sepultado no Cemitério dos
Inocentes, em Porto Velho. Amarante era genro de Rondon e seu braço direito, o
único oficial da Comissão das Linhas Telegráficas MT/AM sepultado em solo
rondoniense. Saber mais sobre Amarante é mergulhar em informações importantes
sobre a formação de Rondônia, envolvendo questões indígenas, geológicas, de
comunicação, da lenda de Urumacuã, de política (teria sido ele, decerto, o
primeiro governador do Guaporé não tivesse morrido cedo; Aluízio Ferreira era
seu súdito). Sob o túmulo de Amarante, sobre o qual o velho militar Rondon
chorou e depositou flores; foi a visita a esse local o motivo de sua última
vinda a Porto Velho, em 1930.
Ainda no
Cemitério dos Inocentes fiz questão de revitalizar o túmulo do poeta Vespasiano
Ramos, morto em 1916, quando Porto Velho era um vilarejo de apenas dois anos de
existência. O ato trouxe lustro à memória apagada daquele que é considerado o
precursor das letras em Rondônia e que figura no Mapa Brasileiro de Literatura.
E pretendo mais: vou agora recuperar o túmulo de Raimundo Cantuária, o
dirigente do Banco da Borracha que foi fundamental no segundo ciclo do látex na
região. Com isso, mostrar a muitos o que significou esse personagem que é nome
de umas das avenidas principais da cidade e cuja trajetória tem interfaces com
a fundação dos seringais Papagaio e Canaã, que deram origem à cidade de
Ariquemes.
Recentemente,
procurei - sem êxito - onde ficava o túmulo da cientista e dama da ornitologia
mundial, Emilie Snethalage, também sepultada no Cemitério dos Inocentes em
1929. Por não conseguir encontrar o local do sepulcro, encomendei, por minha
conta, um busto dela e o afixei nas imediações do Memorial Rondon, recém-inaugurado
pelo governador Confúcio Moura, um entusiasta e apoiador de todas essas
iniciativas.
São ações
pontuais, eu sei. É preciso muito mais. Assim, passado e presente se
Júlio
Olivar, jornalista, escritor e presidente da Academia Rondoniense de Letras, é superintendente
estadual de turismo.

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